{"id":2571,"date":"2012-12-11T15:05:55","date_gmt":"2012-12-11T17:05:55","guid":{"rendered":"http:\/\/bibliobelas.wordpress.com\/?p=2571"},"modified":"2012-12-11T15:05:55","modified_gmt":"2012-12-11T17:05:55","slug":"tese-premiada-pela-capes-analisa-producao-uso-e-preservacao-de-manuscritos-pintados-do-seculo-18","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/index.php\/2012\/12\/tese-premiada-pela-capes-analisa-producao-uso-e-preservacao-de-manuscritos-pintados-do-seculo-18\/","title":{"rendered":"Tese premiada pela Capes analisa produ\u00e7\u00e3o, uso e preserva\u00e7\u00e3o de manuscritos pintados do s\u00e9culo 18"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.ufmg.br\/online\/arquivos\/anexos\/Manuscrito%20sec18.JPG\" width=\"170\" height=\"230\" \/>A tradi\u00e7\u00e3o medieval dos manuscritos ornados \u2013 com pinturas e caligrafia caprichada, entre outros elementos \u2013 manteve-se com for\u00e7a no s\u00e9culo 18 em Portugal e no Brasil, mesmo passado longo tempo do advento da imprensa. Documentos produzidos dessa forma conferiam distin\u00e7\u00e3o e, portanto, eram mais eficientes do ponto de vista da comunica\u00e7\u00e3o e tinham mais chances de serem preservados.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para entender como se produziam, usavam e preservavam esses manuscritos, a professora M\u00e1rcia Almada, da Escola de Belas-Artes, percorreu arquivos e bibliotecas de Brasil, Portugal e Espanha. O trabalho resultou na tese Das artes da pena e do pincel: caligrafia e pintura em manuscritos no s\u00e9culo XVIII, defendida em 2011, e vencedora do Pr\u00eamio Capes de Tese da \u00e1rea de Hist\u00f3ria. A solenidade de premia\u00e7\u00e3o ser\u00e1 na pr\u00f3xima quinta, 13, em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A partir do Tratado de caligrafia, publicado por Manoel de Andrade de Figueiredo em 1722, em Portugal, a pesquisadora buscou as refer\u00eancias para o trabalho dos profissionais da atividade escrita. \u201cCheguei ent\u00e3o aos espanh\u00f3is, porque havia estreita liga\u00e7\u00e3o entre a caligrafia espanhola e a portuguesa, devido, em grande parte, ao bilinguismo que reinava na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica\u201d, conta M\u00e1rcia Almada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ela acrescenta que na Espanha h\u00e1 grande quantidade de estudos que tra\u00e7am as redes sociais de escriv\u00e3es e cal\u00edgrafos. Um grupo principal atuava em forte proximidade \u00e0 Corte, e muitos eram amigos de Vel\u00e1squez, Calder\u00f3n de la Barca e Lope de Vega. Em Portugal, Manoel de Figueiredo ensinava a filhos de fidalgos e tamb\u00e9m frequentava os c\u00edrculos do poder. Isso mostra, segundo Marcia, a import\u00e2ncia da escrita adornada para a distin\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cAl\u00e9m desses cal\u00edgrafos de elite, havia uma enormidade de outros profissionais que n\u00e3o se destacaram. E eles atendiam a uma demanda que n\u00e3o era apenas de grupos sociais mais favorecidos. A clientela inclu\u00eda grupos de negros \u2013 escravos ou libertos \u2013 e pardos. Pessoas iletradas tamb\u00e9m valorizavam os manuscritos adornados\u201d, salienta a professora do curso de Conserva\u00e7\u00e3o e Restaura\u00e7\u00e3o de Bens Culturais M\u00f3veis.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Compromissos de irmandades<br \/>\nPara delimitar o universo de suas pesquisas, Marcia Almada escolheu os chamados \u201ccompromissos de irmandades\u201d, estatutos de organiza\u00e7\u00f5es que regiam a vida social e religiosa de grupos diversos. Os estudos mais aprofundados sobre os documentos levaram \u00e0 categoriza\u00e7\u00e3o de tr\u00eas estilos principais encontrados nos manuscritos produzidos sob encomenda das irmandades de Minas Gerais, na primeira metade do s\u00e9culo 18.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outra forma de concentrar a investiga\u00e7\u00e3o foi a op\u00e7\u00e3o pela an\u00e1lise dos trabalhos do cal\u00edgrafo tratado na tese como \u201co cal\u00edgrafo\/pintor de Vila Rica\u201d \u2013 como a maioria dos trabalhos n\u00e3o era assinada, os pesquisadores recorrem a formas alternativas para identificar os profissionais. A escolha foi motivada, entre outros fatores, pelo fato de que um manuscrito desse cal\u00edgrafo, datado de 1725, revela forte influ\u00eancia do tratado de caligrafia de Manoel de Figueiredo, publicado apenas tr\u00eas anos antes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cIsso me intrigou, porque esse intervalo era curto, na \u00e9poca, para que um profissional tivesse acesso, em Minas Gerais, a uma obra editada em Portugal. Ainda pretendo descobrir como ele tomou conhecimento do tratado, se teria encomendado um exemplar em Lisboa, ou mesmo se, na verdade, o pintor de Vila Rica teria sido portugu\u00eas, rec\u00e9m-chegado ao Brasil\u201d, explica M\u00e1rcia. Ela conta tamb\u00e9m que encontrou em Portugal um outro manuscrito do mesmo autor realizado no mesmo ano de 1725, o que foi especialmente valioso para suas pesquisas. \u201cQuase chorei quando descobri o documento\u201d, ela diz. Em trabalhos realizados nove anos depois, \u201cfoi poss\u00edvel perceber o aprimoramento t\u00e9cnico, embora ele ainda usasse os mesmos padr\u00f5es na caligrafia e nas pinturas.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u2018Agentes iletrados da escrita\u2019<br \/>\nA pesquisa de Marcia Almada proporcionou uma s\u00e9rie de descobertas relacionadas ao processo de produ\u00e7\u00e3o dos manuscritos. A an\u00e1lise dos textos revelou, por exemplo, as diferen\u00e7as com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 grafia das palavras. \u201cEra uma \u00e9poca de normatiza\u00e7\u00e3o do idioma, que viria a se consolidar no final do s\u00e9culo 18, com as pol\u00edticas educativas de Marqu\u00eas de Pombal, e v\u00e1rias formas de escrever ainda eram aceitas. O ensino, incluindo os materiais, n\u00e3o tinha uniformidade\u201d, explica a pesquisadora.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">M\u00e1rcia comenta tamb\u00e9m que n\u00e3o era preciso saber ler e escrever para trabalhar como cal\u00edgrafo, e os pr\u00f3prios manuais previam que bastava saber desenhar. \u201cEsses profissionais eram os agentes iletrados da escrita, que denominei \u2018desenhistas iletrados\u2019. Os manuais recomendavam que se usassem moldes e se recorresse a uma pessoa letrada para conferir o resultado final\u201d, diz Marcia Almada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A partir de 1761, ela conta, os documentos das irmandades seguiam para Lisboa, para aprova\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os administrativos, como o Conselho Ultramarino, que se encarregava dos dom\u00ednios coloniais. Trabalhos bem executados, com capitulares bem desenhadas e tinta de boa qualidade, mostravam capacidade operativa das irmandades. \u201cO prest\u00edgio conferido por um documento adornado corresponde \u00e0 forte valoriza\u00e7\u00e3o, pela sociedade setecentista, da visualidade, como comprovam as igrejas, os cortejos e os monumentos ef\u00eameros\u201d, destaca Marcia Almada. Com bolsas da Fapemig e da Capes, ela pesquisou em institui\u00e7\u00f5es portuguesas como a Biblioteca Nacional de Lisboa, a Torre do Tombo \u2013 que guardam documentos da biblioteca real \u2013, o Arquivo Hist\u00f3rico Ultramarino e a Universidade de Coimbra. Na Espanha, visitou a Biblioteca Nacional e a Biblioteca da Resid\u00eancia de Estudiantes, que guarda o acervo do antigo museu pedag\u00f3gico e conserva uma cole\u00e7\u00e3o consistente de manuais de caligrafia, impressos e manuscritos. No Brasil, explorou sobretudo estantes e arm\u00e1rios do Arquivo P\u00fablico Mineiro e dos arquivos eclesi\u00e1sticos de Ouro Preto, Mariana e S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rey.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">M\u00faltiplos suportes<br \/>\nEntre os aspectos que garantem o car\u00e1ter inovador da tese de Marcia Almada, ela ressalta a explora\u00e7\u00e3o dos compromissos de irmandades, que haviam sido mais estudados por historiadores, privilegiando o aspecto textual, e a metodologia que lan\u00e7a m\u00e3o de suportes m\u00faltiplos do conhecimento, como a hist\u00f3ria cultural, a hist\u00f3ria da arte, a paleografia e hist\u00f3ria material.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ela considera que disp\u00f5e hoje de um invent\u00e1rio muito relevante do repert\u00f3rio est\u00e9tico dos cal\u00edgrafos que trabalhavam no Brasil, especialmente em Minas Gerais. E que esse material pode servir de ponto de partida para uma s\u00e9rie de outros estudos, da an\u00e1lise qu\u00edmica dos pigmentos \u00e0 trajet\u00f3ria da cultura visual daqueles profissionais. \u201cAinda h\u00e1 muito o que estudar\u201d, diz Marcia Almada, que ainda n\u00e3o definiu o caminho das investiga\u00e7\u00f5es do p\u00f3s-doutorado que ser\u00e1 financiado pelo Pr\u00eamio Capes de Tese.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tese: Das artes da pena e do pincel: caligrafia e pintura em manuscritos no s\u00e9culo XVIII<br \/>\nDe M\u00e1rcia Almada<br \/>\nOrientadora: J\u00fania Ferreira Furtado<br \/>\nDefesa em 15 de julho de 2011<br \/>\nPrograma de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">(Itamar Rigueira Jr.)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">++++++++<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim que dispon\u00edvel em formato digital, divulgaremos aqui o link para a obra!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tradi\u00e7\u00e3o medieval dos manuscritos ornados \u2013 com pinturas e caligrafia caprichada, entre outros elementos \u2013 manteve-se com for\u00e7a no s\u00e9culo 18 em Portugal e no Brasil, mesmo passado longo tempo do advento da imprensa. 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