{"id":2723,"date":"2013-04-23T15:29:55","date_gmt":"2013-04-23T17:29:55","guid":{"rendered":"http:\/\/bibliobelas.wordpress.com\/?p=2723"},"modified":"2013-04-23T15:29:55","modified_gmt":"2013-04-23T17:29:55","slug":"arte-como-experiencia-resenha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/index.php\/2013\/04\/arte-como-experiencia-resenha\/","title":{"rendered":"Arte Como Experi\u00eancia &#8211; resenha"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\" align=\"right\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;line-height:1.7;\">Magali Reis I; Luiz Armando Bagolin II<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\"><br \/>\nI &#8211; Professora, doutora e pesquisadora na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Minas Gerais \u00a0<a href=\"mailto:magali_rei@pucminas.br\">magali_rei@pucminas.br<\/a><br \/>\n<\/span><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\">II &#8211; Professor, doutor e pesquisador na \u00e1rea de artes do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de S\u00e3o Paulo\u00a0<a href=\"mailto:lbagolin@usp.br\">lbagolin@usp.br<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\"><b>Arte al\u00e9m do bem e do mal<\/b><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\">JOHN DEWEY (trad. Vera Ribeiro; introd.: Abraham Kaplan) S\u00c3O PAULO: MARTINS, 2010, 646 p.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\"><a href=\"https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/arte-como-experic3aancia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-2724\" alt=\"arte como experi\u00eancia\" src=\"https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/arte-como-experic3aancia.jpg\" width=\"250\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/arte-como-experic3aancia.jpg 250w, https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/arte-como-experic3aancia-208x300.jpg 208w\" sizes=\"auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/a>A arte, desinteressada, alojada em um pedestal como obra de arte, distante da vida comum e cotidiana, \u00e9 desinteressante como experi\u00eancia est\u00e9tica efetiva, sendo louv\u00e1vel t\u00e3o somente por lembrar que em sua origem ela participava dos modos de ver e de sentir dos indiv\u00edduos que a perfizeram. Para John Dewey, a compreens\u00e3o da experi\u00eancia est\u00e9tica verdadeira passa pela considera\u00e7\u00e3o de seu &#8220;estado bruto&#8221; quanto \u00e0s formas de ver e ouvir como geradoras de aten\u00e7\u00e3o e interesse, e que podem ocorrer tanto a uma dona de casa regando as plantas do jardim quanto a algu\u00e9m que observa as chamas crepitantes em uma lareira. Resultado de dez confer\u00eancias proferidas entre o inverno e a primavera de 1931 na Universidade de Harvard, a obra Arte como experi\u00eancia, publicada pela primeira vez em 1934, sob o t\u00edtulo geral The later works of John Dewey, somente agora surge traduzida para a l\u00edngua portuguesa. N\u00e3o muito distante da vis\u00e3o pragmatista que permeia a sua obra filos\u00f3fica e sua teoria pedag\u00f3gica, a opini\u00e3o constru\u00edda sobre a experi\u00eancia art\u00edstica focaliza a necessidade de se considerar o prazer e a satisfa\u00e7\u00e3o envolvidos nesta experi\u00eancia, cujo impulso \u00e9 dado pelo pr\u00f3prio contexto no qual se insere o indiv\u00edduo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\">Fundamentalmente neo-hegeliana, a vis\u00e3o de Dewey sobre a arte reclama pelo total engajamento do art\u00edfice em rela\u00e7\u00e3o ao produto que fabrica, assim como pela consci\u00eancia sobre o seu processo. Part\u00edcipe da vida, a arte se d\u00e1 sob novas formas e modos de percep\u00e7\u00e3o na atualidade, pois distante dos pedestais dos museus e institui\u00e7\u00f5es onde se exp\u00f5e oficialmente, aparece em lugares incomuns, mas que propiciam a busca do prazer e o exerc\u00edcio da sensibilidade. Ou, como prop\u00f5e o autor que as artes que t\u00eam hoje mais vitalidade para a pessoa m\u00e9dia s\u00e3o coisas que n\u00e3o s\u00e3o consideradas artes como, por exemplo, filmes, jazz, quadrinhos e, com demasiada frequ\u00eancia, as reportagens de jornais sobre casos amorosos, assassinatos e fa\u00e7anhas de bandido.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\">Para que essa opini\u00e3o, talvez um lugar comum para a nossa \u00e9poca &#8211; prenhe de performances e instala\u00e7\u00f5es &#8211; n\u00e3o escandalizasse o leitor da sua obra, ou a audi\u00eancia primeira destas confer\u00eancias, Dewey chama a aten\u00e7\u00e3o para a possibilidade de se considerar que, nas sociedades antigas, as &#8220;artes do drama, da m\u00fasica, da pintura e da arquitetura&#8221; n\u00e3o eram manifesta\u00e7\u00f5es que habitavam teatros, galerias e museus. Antes, participavam da vida coletiva, ligando-se organicamente umas \u00e0s outras &#8211; a pintura e a escultura com a arquitetura, por exemplo, a m\u00fasica e o canto com os ritos e cerim\u00f4nias da vida de determinado grupo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\">O argumento, em sua base, \u00e9 hegeliano, pois a obra de arte enseja sempre uma participa\u00e7\u00e3o entre aquilo que \u00e9 obra &#8211; portanto, a parte material, sens\u00edvel, que se &#8220;exp\u00f5e para&#8221; &#8211; e a arte &#8211; ou seja, a ideia trazida pelo &#8220;Esp\u00edrito&#8221;, que &#8220;se exp\u00f5e em&#8221;. Em outros termos, a obra \u00e9 &#8220;de arte&#8221; quando dela, obra, constru\u00e7\u00e3o humana numa determinada sociedade, participa o &#8220;Esp\u00edrito&#8221;, ou o &#8220;Em-Si e Para-Si&#8221;, n\u00e3o havendo mais possibilidade de que tal associa\u00e7\u00e3o se produza em nossa \u00e9poca, para a qual a arte tornou-se um &#8220;objeto de considera\u00e7\u00e3o cient\u00edfica&#8221;. O que se v\u00ea nos museus como &#8220;obra de arte&#8221; \u00e9 apenas um corpo oco, desabitado do &#8220;Esp\u00edrito&#8221; que, outrora, dela, como obra, participara. A arte verdadeira, nos tempos dessa participa\u00e7\u00e3o, segundo Hegel, n\u00e3o era, desse modo, entendida como arte, pois as pessoas ajoelhavam-se diante dela no interior dos templos, mirando o sagrado de que se revestia o &#8220;Intelig\u00edvel&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\">Servindo-se desse argumento, Dewey tenta demonstrar como \u00e9 necess\u00e1rio distinguir entre esses objetos, elevados ao status de obras de arte, mas separados da experi\u00eancia temporal e social de sujeitos contempor\u00e2neos, e as formas novas de sensibilidade, na verdade, espec\u00edficas e adequadas, pois n\u00e3o s\u00e3o universais, mas se justificam em cada \u00e9poca, permitindo a esses sujeitos expressarem a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de vida. Para o autor, entretanto, a dessacraliza\u00e7\u00e3o da arte, entendida como experi\u00eancia apartada da vida humana, foi agravada pelo capitalismo, cuja &#8220;influ\u00eancia&#8221; se fez sentir na institui\u00e7\u00e3o da arte: &#8220;O crescimento do capitalismo foi uma influ\u00eancia poderosa no desenvolvimento do museu como o lar adequado para as obras de arte, assim como na promo\u00e7\u00e3o da ideia de que elas s\u00e3o separadas da vida comum&#8221;. Associado ao materialismo crescente sobre as sociedades modernas, o capitalismo &#8220;enfraqueceu ou destruiu o v\u00ednculo&#8221; das obras de arte com os seus respectivos contextos de origem, o genius loci dos quais eram essas obras a &#8220;express\u00e3o natural&#8221;. A ruptura desse v\u00ednculo, segundo o autor, determinou a abertura de um &#8220;abismo entre a experi\u00eancia comum e a experi\u00eancia est\u00e9tica&#8221;, produzindo um esteticismo desenfreado que muito tem a ver com os modos de operar do com\u00e9rcio e do mercado, mas pouco com a experi\u00eancia da arte. Teorias est\u00e9ticas j\u00e1 existentes, as muitas, s\u00f3 ajudaram a aprofundar esse abismo. Portanto, para o autor, deve-se buscar a compreens\u00e3o a partir de um &#8220;desvio&#8221;, dirigindo-se diretamente \u00e0 experi\u00eancia, solo comum, de onde as obras adv\u00eam. Indaga-se, de in\u00edcio, pela natureza da experi\u00eancia como concernida \u00e0 vida e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es para a sua exist\u00eancia. Em primeiro lugar, na lista dessas condi\u00e7\u00f5es, h\u00e1 um ambiente, um lugar no qual a vida surge e com o qual ela interagir\u00e1 o tempo todo. Para Dewey, os &#8220;lugares-comuns biol\u00f3gicos s\u00e3o as ra\u00edzes da est\u00e9tica na experi\u00eancia&#8221;. Esta \u00e9 resultante de um processo de adapta\u00e7\u00e3o pelo qual a vida busca a expans\u00e3o (n\u00e3o a contra\u00e7\u00e3o ou a acomoda\u00e7\u00e3o), enfrentando todas as hostilidades e percal\u00e7os ao seu desenvolvimento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\">Por isso, os seres acolher\u00e3o a ordem, em meio a um mundo que opera segundo o caos e a desordem, incorporando-a em si mesmos e compartilhando-a em suas ocorr\u00eancias exteriores: a ordem sendo produzida em toda parte, tamb\u00e9m se produz fora dos seres. No homem, &#8220;a perda da integra\u00e7\u00e3o ao meio&#8221; ou a impossibilidade de partilhar tal ordem geram sentimentos como a emo\u00e7\u00e3o, caso se ofere\u00e7a a ruptura; ou a reflex\u00e3o, caso seja gerada a disc\u00f3rdia. &#8220;Tens\u00e3o e resist\u00eancia&#8221; ativam, como potencialidade, a experi\u00eancia para o artista, e como problema, a experi\u00eancia para o cientista, embora esse processo possa ser invertido para ambos, por se originar a experi\u00eancia, segundo o autor, do mesmo enraizamento: &#8220;o pensador tem seu momento est\u00e9tico quando suas ideias deixam de ser meras ideias e se transformam nos significados coletivos dos objetos. O artista tem seus problemas e pensa enquanto trabalha&#8221;. No entanto, o pensamento no artista ocorre em tal conson\u00e2ncia com os meios que ele utiliza, que parece haver, entre pensamento e objeto, uma fus\u00e3o em um s\u00f3 termo. Sem confus\u00e3o, a experi\u00eancia est\u00e9tica verdadeira enseja a harmonia, obtida desde que haja &#8220;de algum modo, um entendimento com o meio&#8221;. A arte que interessa realmente surge a partir do poder de realiza\u00e7\u00e3o de novas adapta\u00e7\u00f5es, perfazendo-se como experi\u00eancia est\u00e9tica &#8211; portanto, significativa &#8211; em um tempo que \u00e9 t\u00e3o somente o de seu presente, consoante ao desfrute ou ao gozo que ela proporciona -, por conseguinte, n\u00e3o duradoura, mas n\u00e3o apartada do mundo. A experi\u00eancia \u00e9, assim, sempre tratada como positiva, na medida em que, para o autor, s\u00f3 tende a incrementar a vida. A positividade proposta para a experi\u00eancia bruta, primeira, implica que se considerem todos os sentidos ativos no mundo e com &#8220;o mundo dos objetos e acontecimentos&#8221;, no qual o &#8220;eu&#8221; busca o ritmo e a ordem livrando-se do caos: &#8220;a experi\u00eancia \u00e9 a arte em estado germinal&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\">Mas \u00e9 preciso que se note que os sentidos sofreram o mesmo tipo de separa\u00e7\u00e3o que se deu com as formas de vida em suas representa\u00e7\u00f5es institucionais, econ\u00f4micas e jur\u00eddicas. Valorizados aqueles que se subordinam ao intelecto, desprezados aqueles que se distanciam da raz\u00e3o, em geral os sentidos s\u00e3o usados mecanicamente, sem que nos apercebamos disto. O uso dos sentidos recupera o seu sentido origin\u00e1rio quando abarca e interpenetra todas as coisas do mundo, levando a &#8220;criatura&#8221; a experiment\u00e1-las, apontando os seus significados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\">Discordando da posi\u00e7\u00e3o kantiana, para quem a natureza produz efeitos e n\u00e3o obras, Dewey prop\u00f5e o ninho do p\u00e1ssaro e o dique do castor como exemplos de &#8220;processos do viver&#8221; dos quais emerge a arte, sem que haja a necessidade de distingui-los no homem. Afirmada neste, como qualidade distintiva, a consci\u00eancia \u00e9 o agente promotor da transforma\u00e7\u00e3o de materiais e energias da natureza em arte, sendo conduzida como experi\u00eancia est\u00e9tica, pois envolve a participa\u00e7\u00e3o ativa de todos os sentidos. A transitividade entre a sensa\u00e7\u00e3o dos sentidos e o ambiente ou meio para a deflagra\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia est\u00e9tica permite que o autor retome a no\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica do artista absorto, imerso na natureza e a ela intrinsecamente ligado: W. H. Hudson, Emerson. O sublime, para Dewey, \u00e9 o denominador comum entre a experi\u00eancia est\u00e9tica e a religiosa, uma vez que ainda defende o sentimento extasiado como sumo efeito dos processos de intera\u00e7\u00e3o da vida biol\u00f3gica (e n\u00e3o da espiritual) com o meio, nos quais a experi\u00eancia art\u00edstica \u00e9 fulcro para os sentidos e a consci\u00eancia, que se traduziram em ato sobre determinada mat\u00e9ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\">O pensamento tem papel fundamental nessa transitividade, pois proposto como movimento cont\u00ednuo, seguido das teorias de seu amigo William James, permite ser representado pari passu \u00e0s representa\u00e7\u00f5es do sublime, em imagens an\u00edmico-clim\u00e1ticas, nas est\u00e9ticas do s\u00e9culo XIX. Ininterrupto, produzido em ondas, o pensamento s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 condutivo da experi\u00eancia e conclusivo quando premido pela precipita\u00e7\u00e3o da vida apressada que o empobrece, enfraquecendo aquela ou sobre ela produzindo uma &#8220;interfer\u00eancia&#8221;. Dewey parece querer reivindicar a supera\u00e7\u00e3o da dicotomia entre produ\u00e7\u00e3o e recep\u00e7\u00e3o da obra de arte presente na est\u00e9tica kantiana, a produ\u00e7\u00e3o a encargo do artista, g\u00eanio dotado de poderes de imagina\u00e7\u00e3o; a recep\u00e7\u00e3o a encargo do p\u00fablico, depois de mediada pelo ju\u00edzo. Para o autor, quando a produ\u00e7\u00e3o da obra de arte \u00e9 desfrutada na experi\u00eancia ou durante o processo de sua execu\u00e7\u00e3o, o artista incorpora em si a mesma atitude do espectador. Este deve ser estimulado a refazer as &#8220;rela\u00e7\u00f5es vivenciadas pelo produtor original&#8221; para perceber &#8220;o processo de organiza\u00e7\u00e3o consciente vivenciado pelo criador da obra&#8221;. Para Dewey, o espectador deve utilizar a obra de arte, que atesta uma experi\u00eancia alheia, para criar a pr\u00f3pria experi\u00eancia, o que a potencializa como um ato de recria\u00e7\u00e3o significativa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\">De maneira semelhante, \u00e9 preciso superar a dicotomia entre mat\u00e9ria e forma presente em teorias est\u00e9ticas ora &#8220;idealistas&#8221;, ora &#8220;sensualistas&#8221; que confirmariam a &#8220;fal\u00e1cia&#8221; contra a unidade dos dois termos na experi\u00eancia. A supera\u00e7\u00e3o dessa dicotomia faz com que se passe para a pr\u00f3xima, que rigorosamente \u00e9 o cerne da discuss\u00e3o proposta pela est\u00e9tica de Dewey: a separa\u00e7\u00e3o entre sujeito e objeto, tal como foram discriminados pela filosofia, n\u00e3o faz sentido para o verdadeiro conceito de experi\u00eancia, uma vez que, para esta, corresponderiam o organismo e o meio ambiente, termos que, integrados na verdadeira experi\u00eancia, como j\u00e1 referido, interagem de modo equilibrado. Os excessos contingentes, tanto de um lado como de outro, explicariam os defeitos numa obra de arte.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\">De todas as teorias filos\u00f3ficas da arte, talvez a que mais se aproxime da est\u00e9tica de Dewey, segundo o que ele mesmo afirma neste livro, seja a da &#8220;teoria da arte como brincadeira&#8221;. Pelo menos a\u00ed haveria o reconhecimento da &#8220;necessidade da a\u00e7\u00e3o, do fazer algo&#8221;. N\u00e3o h\u00e1 arte, para Dewey, sem a no\u00e7\u00e3o fundamental de que a a\u00e7\u00e3o permite a passagem do n\u00e3o ser para o ser, no\u00e7\u00e3o que \u00e9 basilar tamb\u00e9m para o conceito de experi\u00eancia. O &#8220;gatinho&#8221; brinca com o novelo de l\u00e3 e esta brincadeira n\u00e3o difere muito da de uma crian\u00e7a pequena. Mas ao contr\u00e1rio do que ocorre com um animal, a manifesta\u00e7\u00e3o da brincadeira no homem adquire em algum momento a necessidade de ordena\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia, transformando-se de brincadeira em jogo e, deste, em trabalho, embora n\u00e3o identificado com o cansa\u00e7o e a labuta penosa. A experi\u00eancia que deflagra a atividade art\u00edstica, para Dewey, n\u00e3o pode ser coercitiva, mas livre e prazerosa, implicando n\u00e3o o trabalho em sua forma usual, pejorativo, mas sob a forma de uma experi\u00eancia est\u00e9tica. Nisso, n\u00e3o difere muito o autor de Kant, do qual muitas vezes parece querer afastar-se, pois a &#8220;terceira cr\u00edtica&#8221; kantiana exp\u00f5e explicitamente a oposi\u00e7\u00e3o entre &#8220;bela-arte&#8221;, ou &#8220;arte livre&#8221;, e &#8220;artesanato&#8221;, ou &#8220;arte remunerada&#8221;. A primeira, como jogo ou atividade que em si mesmo \u00e9 prazerosa; a segunda, como goz\u00e1vel apenas em raz\u00e3o de um interesse atendido ou da expectativa de um valor aferido e satisfeito depois da atividade cumprida, mas n\u00e3o uma atividade deleit\u00e1vel por ela mesma.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\">A aproxima\u00e7\u00e3o entre arte e brincadeira refaz, portanto, o v\u00ednculo entre arte ou experi\u00eancia est\u00e9tica e &#8220;desinteresse&#8221;, conceito-chave das est\u00e9ticas oitocentistas, pois a experi\u00eancia da consecu\u00e7\u00e3o da obra de arte deve necessariamente ter seu foco nela mesma como crit\u00e9rio de exposi\u00e7\u00e3o de sua unidade interna, o que seria dif\u00edcil caso o prop\u00f3sito da intera\u00e7\u00e3o entre sujeito e objeto, forma e mat\u00e9ria, estivesse colocado fora da experi\u00eancia. Um interesse alheio a esta, como seu deflagrador, poderia ser lido logicamente como outra experi\u00eancia, o que implicaria admitir que a experi\u00eancia da arte n\u00e3o \u00e9 livre, pois subordinada a interesses exteriores a ela, o &#8220;organismo&#8221;, portanto, n\u00e3o interagindo livremente e em reciprocidade com o &#8220;ambiente&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-family:Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size:small;\">Tamb\u00e9m, o papel da cr\u00edtica como instrumento de media\u00e7\u00e3o, como auxiliar para a &#8220;reeduca\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o das obras de arte&#8221;, \u00e9 resgatado por Dewey com base em Kant, embora o autor descarte a fun\u00e7\u00e3o moralizadora do ju\u00edzo, suas &#8220;aprova\u00e7\u00f5es ou desaprova\u00e7\u00f5es&#8221;, &#8220;classifica\u00e7\u00f5es e condena\u00e7\u00f5es&#8221;. &#8220;A fun\u00e7\u00e3o moral da pr\u00f3pria arte \u00e9 eliminar o preconceito&#8221;, prop\u00f5e Dewey, dirigindo tamb\u00e9m ao cr\u00edtico esta fun\u00e7\u00e3o, porque acredita que o ju\u00edzo verdadeiro acerca da obra art\u00edstica nasce da experi\u00eancia de sua recria\u00e7\u00e3o, como reordena\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia que a gerou no organismo de quem dela provar. Para que a experi\u00eancia da arte seja vivenciada pelo indiv\u00edduo livre, \u00e9 necess\u00e1rio que a considere alienada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 &#8220;pr\u00e1tica da moral&#8221;, que produz as ideias de &#8220;louvor e de censura&#8221;, de &#8220;recompensa e de castigo&#8221;. Indiferente a tais ideias, a arte, ainda pensada de forma idealizada por Dewey, \u00e9 colocada como uma experi\u00eancia acima do bem e do mal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">++++++++++++++++++++++++++++++<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A obra A Arte como Experi\u00eancia\u00a0de John Dewey est\u00e1 dispon\u00edvel para empr\u00e9stimo n Biblioteca da Escola de Belas Artes \u00a0e na biblioteca da\u00a0Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Magali Reis I; Luiz Armando Bagolin II I &#8211; Professora, doutora e pesquisadora na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Minas Gerais \u00a0magali_rei@pucminas.br II &#8211; Professor, doutor e pesquisador na \u00e1rea de artes do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de S\u00e3o Paulo\u00a0lbagolin@usp.br Arte al\u00e9m do bem e do mal JOHN DEWEY (trad. &hellip; <a href=\"https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/index.php\/2013\/04\/arte-como-experiencia-resenha\/\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Arte Como Experi\u00eancia &#8211; resenha<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[20,86,90],"class_list":["post-2723","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-postagens","tag-artes-literatura","tag-john-dewey","tag-literatura-academica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2723","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2723"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2723\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2723"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2723"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bibliobelas.eba.ufmg.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2723"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}